segunda-feira, 5 de outubro de 2009
os percevejos de marfim
os percevejos de marfim são criaturas fantásticas! eles adoram o odor vivo que os seres humanos exalam pelas virilhas afora e é por isso que eles sempre aparecem quando a gente menos espera. aos poucos eles vão se infiltrando nos vasos sanguíneos, sugando muito lentamente toda nossa energia. os cabelos vão ficando brancos, a pele começa a sobrar, a visão embaça e o amor passa. tudo por causa dos maleditos percevejos de marfim que insistem em nos subtrair. não temos força suficiente para fazê-los parar, eles são intravenosos, por sorte temos prazer em sermos macerados. quando chegam ao coração, as meretrizes embalam a meiose e o fluxo espalha os percevejinhos de marfim até as falanges, dá até vontade de enfiar o dedo na garganta, mas estamos totalmente dominados pela preguiça de vomitar bolas de pêlos e então morremos engasgados.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
santa paciência
ele já está bem baixo escorregando de leve no oeste celestial. olheira suada e olhos perdidos, mais um dia de ônibus. a mãe de três carrega as malas dividindo as sacolas com as crias escuras, minha cabeça dói antes mesmo dela me acertar com a porra da mala. está sendo um dia cansativo. a impressão é de estar renunciando o regaço da mãe ao me sentir tão medíocre, mas eu acho que tudo bem, essa vida de vontades vai passar para que finalmente eu possa ficar mais perdida ainda. e agora, maria? você vai ficar pra titia! risos sinceros.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
se renda
musiquinha pra se tomar escutando um bom vinho e lucky strike, repugnando a razão. me abraçe e sinta
terça-feira, 22 de setembro de 2009
paz no fim do dia
O céu se debruçou encharcando a cidade feia. Começou bem leve, pingava pouco, mas a cortina cinza lá na frente anunciava o encontro desastroso de pneu, água e velocidade. não deu outra, o caminhão capotou, a moto e o carro rodopiaram e meu sangue, derme e cérebro se misturaram. meus ollhos foram triturados criando uma camada quente cheia de pequenos cacos de vidro que descia devagar até chegar ao meu ouvido, havia carne queimada grudada no motor, pedaços pra todo canto, carros e mais carros paravam pra degustar o espetáculo. sentí línguas esfomeadas passeando pela massa densa que sobrou de mim, fui vagarozamente toda digerida pelos animais da estrada, os motoristas.
sábado, 19 de setembro de 2009
mesa verde de café
eu acordei mais cedo e fiquei olhando pra cadeira torta do computador. lembrei dela rindo alto e jogando a cabeça pra trás como cenas estranhas de um filme antigo, linda. mal dava pra acreditar que ela tinha ido embora e eu nem ví, a gente tava meio bêbado e ficou planejando a manhã de café juntos, ela adorava fazer o café pra gente, ia pra cozinha bem devagar com medo de me acordar e estragar uma suposta surpresa, mas aquele cheiro de café que era simplismente dela sempre me acordava, não havia jeito melhor de amanhecer, eu me esticava e um sorrizinho era inevitável. eu pensava que.
oi?
oi, zé
...
...
onde você vai almoçar?
mais tarde eu passo aí, beijo.
fui almoçar pensando naquilo, corrí para o quarto, tinha lembrado que antes do filme começar ela se queixou dos brincos e os colocou em cima da mesa porque sua bolsa estava longe, fui lá olhar na certeza que eles estariam alí exatamente na mesma disposição em que ela os debruçou. mas não, ela não havia esquecido absolutamente nada! nem os cds. nosso namoro nunca esteve tão silencioso e ela tão perdida. lembrei de quando ela passava a mão de leve na minha nuca enquanto eu dirigia, soprando bem leve don't think twice, it's alright.
oi?
oi, zé
...
...
onde você vai almoçar?
mais tarde eu passo aí, beijo.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
no final daquilo tudo fomos
_meu amor?
_estou bem, estou bem
_ah! chega dessa chatice de sempre, porra!
_mas o que foi? que stress é esse?
_... eu estou cansada e com preguiça de você
_ué,
_ah, esse falatório que nunca chega a lugar nenhum!
_mas a gente precisa de...
_a gente precisa de muita coisa, muita coisa, não consigo te alcançar
_por que você quer isso?
_porque eu já cansei, tá ouvindo? cansei! cansei! encheu meu saco, não dá mais
_você é a única pessoa que pode fazer isso,
_puta merda! será que você não pode ao menos tentar me ajudar, caramba, esse cansaço está me matando! minhas costas estão piores e minhas tardes também. eu sinto uma saudade que não passa, um corte que não quer sarar! _____ tão só...
_mas então?
_eu não consigo, não quero mais conseguir.
_vá embora, menina, você precisa.
embora e eu fiquei matutando, pra que fingir tanto se sempre é assim, a gente chega tonto fedendo cigarro e sozinho. descobri que é assim, no fim da noite sempre estamos todos perdidos.
terça-feira, 25 de agosto de 2009
de volta
No ônibus as pessoas são macacos. Viram macacos ou já são macacos, desconfio. Infernal e suado empurra empurra, um bafo quente que dá nojo. É a pressa, jantar e novela.
Mas enfim, decidi ir de carro pra chegar mais cedo. O asfalto novo dava potência aos pneus que abafavam o barulho do motor. Emitia um barulho seco que me acalmava. Tive a impressão que eu bateria o recorde naquela BR tão lisa e comprida. Era como se uma linha contínua me acompanhasse, ela seguia cinza e veloz alimentando aquela engenhoca quente que pedia água. Enquanto isso as pedrinhas soltas sambavam na lataria lá atrás, pequeninos arranhões,
meu pai nem vai notar.
Acelerei.
Meus pés se afundaram naquele pedal, eu estava sob controle absoluto. Deslizei as mãos devagar sobre aquele volante, um giro suave que acariciava paciente aquele couro vagabundo. Uma troca justa, carícias por fundos goles de velocidade.
Me sentí o Slash masturbando sua Les Paul amarelo-laranja. Meus caninos rangiram como um paleolítico. Fiquei vidrada, não queria mais parar, o coração tentava brutalmente desatar meus seios do sutiã até que uma gotinha minou entre as pitombas e desceu levemente fria com o vento que passou. Olhei no retrovisor e começei a cantar (e alto) dei gargalhadas, debochei da vida abrindo bem os olhos pra qualquer erro fulminante, debochei do amor, da minha auto piedade e mordí o meu braço até lacrimejar, mais uma tatuagem, baixo relevo circular de pequenas piscinas roxas de sangue, leão e zebra em mim, leão e zebra de mim, é muito gozo pra uma simples thais.
Mas enfim, decidi ir de carro pra chegar mais cedo. O asfalto novo dava potência aos pneus que abafavam o barulho do motor. Emitia um barulho seco que me acalmava. Tive a impressão que eu bateria o recorde naquela BR tão lisa e comprida. Era como se uma linha contínua me acompanhasse, ela seguia cinza e veloz alimentando aquela engenhoca quente que pedia água. Enquanto isso as pedrinhas soltas sambavam na lataria lá atrás, pequeninos arranhões,
meu pai nem vai notar.
Acelerei.
Meus pés se afundaram naquele pedal, eu estava sob controle absoluto. Deslizei as mãos devagar sobre aquele volante, um giro suave que acariciava paciente aquele couro vagabundo. Uma troca justa, carícias por fundos goles de velocidade.
Me sentí o Slash masturbando sua Les Paul amarelo-laranja. Meus caninos rangiram como um paleolítico. Fiquei vidrada, não queria mais parar, o coração tentava brutalmente desatar meus seios do sutiã até que uma gotinha minou entre as pitombas e desceu levemente fria com o vento que passou. Olhei no retrovisor e começei a cantar (e alto) dei gargalhadas, debochei da vida abrindo bem os olhos pra qualquer erro fulminante, debochei do amor, da minha auto piedade e mordí o meu braço até lacrimejar, mais uma tatuagem, baixo relevo circular de pequenas piscinas roxas de sangue, leão e zebra em mim, leão e zebra de mim, é muito gozo pra uma simples thais.
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