quarta-feira, 6 de julho de 2011

Já senti que algo de novo estava vindo

O silêncio vem como o primeiro cigarro da manhã, sem culpa ou gesto. Milhões de vícios acabam diluindo meus dedos e sexo em algo comum que vai além da alegria mais simples.
Dias e mais dias...
De tão secos meus olhos começam a suar, os poros florescem feito margaridas de tanto ardor, me devolvendo ao berço para o qual fugi.
Na minha roupa fica o cheiro de quem eu nem mais lembro tanto e a saudade do último trago.

sexta-feira, 25 de março de 2011

o sofá

depois de alguns cigarros e babaquices de internet, liga a tv e deita no sofá. dorme e baba no sofá. quando amanhece o dia, a tv ainda ligada, se estica do sono, boceja forte pra caber mais preguiça.

fica alí por um tempo tentando planejar o que não vai fazer. Não vai estudar, não vai ler a revista que chegou essa semana, não vai se perder no sono da tarde.

levanta pra comer, come, come e come. faz seus rituais, muda o canal pra algum jornal importante depois corre pro banho de uma hora pra se sentir menos culpado por isso.

tenta ler, mas o rodapé do seu quarto lhe parece tão mais interessante que isso. olha pra janela e tenta se imaginar com uma vida diferente, uma rotina sem grades.

acende um cigarro

dá uma volta pela casa

acende outro cigarro e retorna ao sofá que já virou uma forma (como aquela de bolo que esculpe toda a massa), senta deitado e apoia a cabeça oleosa no braço mamífero do aconchegante sofá.

domingo, 28 de novembro de 2010

Quando

passa de meia noite, cada rua da cidade onde eu moro vira esquina, toda moça que eu olho vira menina e meu dinheiro acaba.
Pego uma carona boa pra voltar. Chego em casa sem saber das escadas, meu cansaço vira elevador. Deito no meu mundo de travesseiro e o escuro gira e gira.

Fecho os olhos e viro um remédio em estômago vazio.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Ombros de algumas mulheres

Todas as mulheres procuram o amor. Isso faz com que sonhem muito, os olhares perdidos são por dentro segredos ensurdecedores, é como se inicialmente a mulher fosse predestinada à ordem, a resultados e moderações. O que as difere é o efeito, abreviar-se ou evoluir.

Sonham, desperdiçam, fingem, o tratam como necessidade, não importa a interpretação do que de fato seria o amor, acredito que tudo é uma questão de moldes. O amor excede receitas.

Depois de tanto, o amor de algumas evapora sem gravidade nem física. Fica ali escapando pelos poros a casualidade, o descobrimento e o prazer de se permitir saborear o que as noites trazem na bandeja, até que tudo vire um jogo.

Esse jogo, como qualquer outro, tem regras. Regras que não existem por opção ou maldade, elas apenas ajudam na vitória: Forçar desapego para que a ausência seja mais bem digerida nos dias posteriores. É como apostar em algo que se tem certeza, pagar por algo que já se tem, mesmo que soe impróprio, isso cifra devagar as nossas curvas. Se aventurar, cortar e arranhar para que nunca alcance nenhuma definição. E feito um acrobata o coração assume sua posição de jogador e se torna responsável pelos altos e baixos.

Difícil não é ganhar o jogo e sim descobrir-se incapaz de entender o limite entre permissão e descuidado. Com o tempo a gente acaba aprendendo a se perder e percebe que encher o peito e suspirar sem culpa nem medo alivia os calos. Ganhar o jogo é sair dele com cordas e pescoços.

Não importa o tamanho nem o peso, o sutiã marca fundo nossos os ombros, dentro e fora, todos os dias.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Coração movediço

quando o desprazer começa
muros são criados para que ninguém escute

de noite todo mundo fala alto e rí
menos ele que estica as pernas,
apoia o queixo de leve sobre o peito e cruza as mãos,
vai embora na hora que levanta e paga a conta feito um canalha.

entra no carro, uma boa música começa e ele pensa que poderia ser assim tão fácil

chega em casa mudo,
escova os dentes, metralha o espelho e se apaixona pelo seu reflexo raivoso.

desaparece embaixo dos lençóis,
deitado ele percebe que ser miserável acalma sua solidão.

todo pecado faz sentido quando se fantasia a própria morte pelo prazer da ilusão,
vale a pena morrer quando se é ressuscitado por línguas.

sábado, 4 de setembro de 2010

A gente não pára

O ônibus demora. O intervalo que ele leva de um bairro a outro vale mais de um cigarro, e quando ele chega, o motorista me repara com olhos de lobo e nossos olhares se esbarram sem rumo no retrovisor. De novo e de novo.
Observo a rua inundada de velhos que trabalharam a vida inteira e o que sobrou foram alguns postes acesos na saída de um bar e pouca resistência.
Penso no meu cigarro, na possibilidade de poder observar e pensar tudo num só trago.
O caminho é rápido, chego lá mais rápido ainda.
Nos meus planos, me devolvo aos meus antigos amores e os novos explicam todo esse suor. É bom morar um no outro, difícil é não ir embora descansado.
O motorista ainda me vigia e alcançar a saída vira quilômetros. Chego no meu destino tendo a certeza que vou esperar de novo sem poder fumar um ônibus que nunca chega.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Hoje não escolherei um título

Esse tempo longe me fez pensar em traição. Gosto daqui, gosto das atrizes que passeiam por cada postagem, gosto de ler os meus silêncios benditos, prosperar os desejos que viraram comprimidos de tarja toráxica, de fazer da tela um alguém que eu não sei se sabe, mas vê. Me traí quando senti medo de voltar, me por do avesso de novo e me pendurar vermelha na parede me fez ter menos coragem e mais saudade.
O fato é, achar bobo o que se sente vira um despreparo seguido de fraqueza. Fugir e se instalar no medo não ajuda, eu sei, estou indo e voltando seguidamente.
Não aprendo muita coisa, só acho desperdício deixar escapar.
É bom estar de volta.