sábado, 9 de agosto de 2008

o mundo brilha e poucos giram

O cheiro do ferro umidecido me entorpecia ao ver a tão bela lua se apagar. E é aí que as coisas começam a finalmente fazer sentido, a vida, o dinheiro, os pulsos e tudo mais. Os postes ainda iluminam ruas vazias com suas fortes ondas amareladas, os dias vão devorando as horas e o nosso fim sempre chega. Não quero ser uma lápide gloriosa, nem pétalas secas entaladas no seu choro, apenas bons recortes feitos pelas suas próprias mãos, amigo.

-sinto.

sábado, 2 de agosto de 2008

efeito de desencaixar

O dia foi desaparecendo com a última gota laranja deslizando no horizonte. Da janela ela cantava bonito sentindo o suor massageando seu rosto até a ponta da orelha, longos braços apoiavam seu rosto na certeza de estar sempre alí para sentir seus mais belos fins de tarde. Os olhos devoravam a metamorfose das cores que se desmanchavam com a brisa leve que chegava, era difícil sentir medo, glória ou pavor, aquele momento era único. As batidas fortes recitavam alegres todas as poesias do mundo, nesse momento caiu no abraço da fantasia e se entregou como sempre.
O suor se esfria e o dia desfalece, vejo a certeza como algo inatingível mas fujo como nunca do tédio de sofás e camas pendurados pela casa.

terça-feira, 29 de julho de 2008

ainda aqui

Começo cedo a tentar ser mais feliz, antes que a noite desabe e a cidade se estenda luminoza no meu jardim. Sair e procurar algo para amar é reflexo do limite que a solidão deixou nos meus olhos que hoje brilham intensamente. Peço desculpas a um amor de nome que vem me incomodar a todo tempo, mas hoje eu sinto tédio de ter você que desaparece quando mais dói.

quando? demora, talvez não dê tempo.

"corra! corra, antes que o amor se afaste."

sábado, 26 de julho de 2008

para minha essência

hoje eu não tenho nada nas mangas, nem palavras bonitas pra sentir. queria ir pra longe e conhecer os infernos noturnos que essa cidade abóbora traz na bandeija.
eu que ando chorando pouco, grito por dentro! danço sem par e me sento enquanto a felicidade passa.
por isso que sempre penso o quanto é bom ter uma raiz,
independente de qualquer ilusão
ou dor.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Por dentro

Relembrar seus sopros é como entrar debaixo d’água e arranhar correntezas para de novo sentir as batidas com todo ar e força que minhas mãos alcançam. Talvez a palavra amor não se encaixe tão bem quanto meus olhos, mas digo que ainda me lembro. Quando chega o sono, sonhos me apertam dentro dos braços seus que já estive.
Tudo se envolve e me sinto forte por saber que pelos meus poros escorre você.

domingo, 6 de julho de 2008

metade

é bom viver o meio, sentir as sobras partidas de lembranças e sonhos,
mas sempre falta algo porque quase tudo se fez metade.
estamos sempre dispostos a jogar nossa sorte e nos entregar à vida, passar por bocas quentes, seios confortantes, mãos bem juntas, costas e parede. Tudo passa tão rápido, sutilmente começamos a perder nossa metade, nossos desejos completos, sonhos livres, boas conversas de bar, lembranças do que foi, medos infantís. Parte da fantasia se evapora e a gente suada e amordaçada pouco ou nada vê.
A vida foi lançada e talvez nada mais tenha volta mas não me solte agora, me deixe ficar mais um pouco.

domingo, 22 de junho de 2008

linha amarela

Passos até a esquina funda da pele, comentários vadios tremem os pés de Clara na calçada, mas ela ainda procura algo. Nada existe além do frevo entopido de festa que a desintegra na calçada, por isso prefere a rua. É... a rua, que escorre o pavor de tudo em suas pernas magras de tanto desprazer, ela se modela a cada dia e vai bem na escola, mas seus passos são tristes, seus óculos ficaram fracos e o coração já não aguenta mais. Tudo e todos continuam falando, cantando e buzinando, continuam a irritar suas palavras e tentam estupidamente decifrá-la sempre.
Todos os seus gostos, desejos e mágoas estão escondidos e ela teme não sentir nuvens. Já faz tempo que ela não consegue chorar, seus pesadelos estão devorando algo que ela nem sabe o que, mesmo assim não chora.

Semana passada uma luz encharcou seus olhos e ela pôde entender suas dores mais claramente. Um copo de vinho e seu cigarro de sempre te fizeram sonhar de novo, se jogou nas margens curvas da morte e finalmente chorou seu inteiro coração. Foi um suspiro, o suspiro... soltou os braços e se entregou a uma ponta afiada de aço. Deus te negou o sopro.
Clara escorreu até o meu canto negro acabar, te olhei nos olhos e ví o vazio de não ser o que se é amedrontado pela beleza do óbvio.
Sangue, vida e pavor.
Tédio, ódio e tristeza.
Agora chegou a hora de tudo escorrer. Derreter as marcas do berço, a menina que tinha as mãos no bolso, sonhava com árvores até tudo se implodir e o oxigênio faltar. Agora ela não passa de uma lápide no cemitério vizinho onde se transformou finalmente em simples palavras que resumiram toda uma vida evaporada em minhas mãos.
Clara fica lá dentro e tem dias que ela recussita meus medos,
não consigo mais chorar.