terça-feira, 13 de abril de 2010

A mulher e suas mortes vivas

Por ser mulher e a mais nova dos sete irmãos, fui sempre a mais carente. Meu pai era rígido demais, me batia sempre que eu fazia coisas de meninos (subir em árvores e andar de bicicleta), mas ele me amava muito. Perdí minha mãe. Eu achava que a falta dela iria sumir, vê-la e ouvi-la pela casa era apenas uma forma de esquecer aquele dia em que empinei os pézinhos para alcançar os olhos sobre sua palidez no caixão. Meus irmãos começaram a ir para a cidade trabalhar e eu ficava em casa brincando com meu irmão um ano mais velho que cuidava de mim.
Antes um pouco de completar 14 anos meu pai morre deixando seus filhos numa fazenda longe e simples. Minhas obrigações de certa forma acabaram, fiquei sem chão, sem mãe e sem pai. Ia para a escola porque gostava, ninguém mandava ou conversava comigo sobre a importância. Gostava mais do voley.
Aos 18 me ingressei na polícia de Brasília, daí surgiram as manias de limpeza e organização. Foi uma fase ótima, ganhava bem, comprava bens. Até que um dia conheci meu ex-marido, fizemos três filhos, mas a mais nova não vingou, morri por dentro.
O caixão da minha mãe que era grande demais pra uma garotinnha magricela e o da minha filha era pequeno demais para uma mãe internada, essas são as imagens que eu nunca serei capaz de esquecer. Não se lembrar da mãe e não saber o rosto da filha.
Hoje dou aula para crianças, estou me especializando em psicopedagogia e marco meus filhos em chaves nos parágrafos do meu livro xerocado. Me considero uma pessoa feliz, faço o que gosto e pretendo algum dia publicar algumas bobas poesias.

3 comentários:

B, disse...

É engraçado como histórias reais, só são reais porque fazem seu protagonista sentir.
E o mais sublime é você conseguir passar isso para quem lê.
Eu li. Senti. Adorei!

tanieli disse...

Li, babe. A princípio pensei que detalhes demais podiam ser poupados; no fim acabei ficando só com a surpresa da descoberta do toque real.
Gosto de te ler.

R.R. disse...

...
faço uso desses poucos pontos, já que comentar qualquer coisa, depois de te ler, é besteira!